Conteúdo técnico para cirurgiões-dentistas.
Esta página descreve sequência operatória e usa terminologia profissional. Se você é paciente e quer entender se o seu dente será desgastado, veja preparo dos dentes.
Protocolo Borille — desgaste guiado por mock-up, com controle de espessura
O preparo neste protocolo é executado sobre o mock-up, com canaletas de profundidade calibradas por broca anelada, e não diretamente sobre o dente. A sequência é: canaletas vestibulares, união, canaletas interproximais, redução incisal, remoção da área de brilho e término cervical, seguidos de checagem com guia e acabamento. A extensão subgengival é reservada a três cenários específicos.
Três premissas
1. Preparar, dentro da filosofia de mínima invasão. A ausência total de preparo é exceção, não regra. Há necessidade de preparo sempre que o caso exija controle de perfil de emergência, correção de alinhamento ou de volume.
2. Preservar esmalte com consciência milimétrica. Preservação não é ausência de desgaste; é saber quanto foi removido, em cada terço, e ter como verificar.
3. Trabalhar guiado. Mock-up e guias definem onde e quanto. Broca solta no dente, sem referência prévia, é o oposto do protocolo.
Por que preparar
- Perfil de emergência. Independentemente do material, a transição dente–cerâmica na região cervical precisa permanecer dentro de um ângulo de emergência controlado para ser estável, limpa e visualmente correta. Perfis mais abruptos favorecem acúmulo de biofilme e resposta gengival desfavorável.
- Desgaste cervical mínimo. Um pequeno desgaste nesta região melhora o perfil de emergência e traz a restauração para dentro do envelope funcional e gengival, em vez de sobreposta a ele.
- Canaletas de profundidade. São o instrumento de controle de espessura e de posição. Sem elas, a profundidade é estimada, não medida.
- Limite de indicação. Elemento palatinizado não é caso de compensação com cerâmica. O primeiro passo é ortodontia. Compensar posição com espessura de laminado produz volume vestibular excessivo e desgaste desnecessário.
O que preservar
- consciência do desgaste realizado em cada terço — cervical, médio e incisal, avaliados separadamente;
- respeito às espessuras mínimas de cerâmica, sem abrir espaço além do necessário: subpreparo engorda a peça, superpreparo sacrifica esmalte;
- guias construídas sobre o mock-up como referência de verificação, não de intenção.
Sequência operatória
Seis passos operatórios, seguidos de duas etapas complementares (checagem com guia e acabamento) e, quando indicado, de extensão subgengival.
1. Canaletas vestibulares sobre o mock-up
Executadas com broca anelada sobre o mock-up, não sobre o dente.
- três eixos de orientação, seguindo a anatomia do elemento;
- sequência de brocas:
- 4141 — 0,3 mm
- 4142 — 0,5 mm
- nesta fase não há intervenção nas regiões interproximal e cervical;
- marcação a lapiseira do limite do desgaste antes de remover o mock-up.
2. União das canaletas
- remoção da resina entre as canaletas até apagar completamente o grafite;
- remoção do restante do mock-up na superfície vestibular;
- atenção contínua a onde houve contato em estrutura dental, para não extrapolar o limite planejado.
3. Canaletas interproximais
- brocas 2136F e 2135F;
- apoio da ponta entre os dois elementos, com controle tátil;
- desgaste de no mínimo 0,3 mm abaixo do nível da papila, criando espaço para a cerâmica sem compressão do tecido.
4. Redução incisal
- discos tipo Sof-Lex e pontas adequadas;
- redução controlada, sem envolver a borda incisal como em facetas convencionais. Este é um dos pontos que diferencia a filosofia de laminado ultrafino do preparo de faceta.
5. Remoção da área de brilho
- trabalhar a área de reflexão próxima à proximal;
- broca inclinada a 45 graus, criando um triângulo que forma uma nova face;
- pontas interproximais para levar o término até a metade da papila;
- manter o ponto de contato;
- unir a canaleta à remoção da área de brilho;
- suavizar o contorno resultante, de modo que o elemento pareça mais estreito e natural, sem excesso de volume vestibular.
Esta é a etapa que mais influencia a percepção de largura do dente no resultado final e a que menos aparece em descrições de preparo.
6. Preparo cervical
- definição do término com o campo estabilizado, para precisão visual;
- alta rotação ou contra-ângulo 1:5 com refrigeração;
- ponta 2133F;
- término em nível gengival, respeitando biotipo e arquitetura do tecido.
Checagem do desgaste com guias
- guias provenientes do mock-up ou de silicone para medir o desgaste efetivamente realizado;
- comparação entre profundidade planejada e profundidade alcançada, região a região.
É a etapa que converte "preparo conservador" de intenção em dado. Sem ela, o clínico não sabe se subpreparou — o que engorda a peça — ou se superpreparou, o que sacrifica esmalte de forma irreversível.
Acabamento do preparo
- arredondamento e suavização de todos os ângulos de término;
- borrachas de granulações decrescentes.
A pergunta "precisa mesmo?" se responde pelo que vem depois: acabamento adequado melhora a adaptação da peça, facilita a remoção de excesso na cimentação e determina o comportamento gengival na região do término.
Extensão subgengival: quando e por quê
Três cenários justificam levar o término abaixo da margem gengival:
Diastema. Permite ganho de área proximal para fechar o espaço sem produzir o efeito de dente alargado.
Dente escurecido. Permite maior controle do mascaramento do substrato e esconde a transição entre dente e cerâmica na região onde ela seria mais visível.
Black space com linha média inclinada. Permite ajuste do ponto de contato e da extensão para fechar o triângulo negro e corrigir a proporção percebida.
Fora desses cenários, o término subgengival adiciona risco biológico e dificuldade de captura e de remoção de excesso sem contrapartida. Em todos eles, a filosofia permanece a mesma: mínima invasão com máximo controle de forma, função e estética.
Etapas anteriores e posteriores
O preparo só faz sentido dentro da sequência completa. A forma é definida antes, no enceramento e no mock-up, e a decisão de captura vem logo depois — ver moldagem ou escaneamento e cimentação adesiva de lentes. A visão geral está em Protocolo Borille.
Formação no Protocolo Borille
Esta página descreve a lógica da sequência, sem esgotar variações de caso, tempos e alternativas de instrumental. O aprofundamento, com discussão de casos, acontece na formação — presencial e on-line ao vivo, com cerca de 500 cirurgiões-dentistas formados.
Quero saber sobre a próxima turma
Autoria: Dr. Marcelo Barboza Borille, CRO-RS 14520, responsável técnico da Sorridere (CRO-RS EPAO 2231). Membro do ITI, da SBOE e da IFED. Última revisão: agosto de 2026.
Conteúdo técnico dirigido a cirurgiões-dentistas. Descreve uma sequência clínica e não substitui formação, julgamento clínico individual nem avaliação presencial do paciente. Instrumentos citados por numeração de referência, sem endosso comercial.