Conteúdo técnico para cirurgiões-dentistas.
Esta página descreve protocolo adesivo e usa terminologia profissional. Se você é paciente e quer saber como é o dia da colagem, veja cimentação das lentes.

Protocolo Borille — controle de variáveis, da prova ao ajuste oclusal

A cimentação de laminados cerâmicos é uma etapa de controle de variáveis: adaptação marginal, substrato, tipo de cerâmica, cimento, umidade, cor e oclusão. Este protocolo organiza a sessão em sete etapas, da prova inicial ao ajuste oclusal, com uma sequência mental fixa e variações definidas por caso. A cimentação é planejada desde o diagnóstico, não decidida no dia.

A premissa

A cimentação é onde o planejamento protético-estético encontra a realidade biológica do paciente. Ela não é o fechamento do caso — é parte da estratégia, definida no planejamento inicial, junto com a escolha do material e o desenho do preparo.

Duas condições sustentam o protocolo:

  • foco reabilitador, com o laminado planejado dentro do sistema mastigatório e não como caso isolado;
  • preparo controlado com preservação de esmalte, que é o que torna a adesão previsível. Cimentação sobre substrato majoritariamente dentinário é outro problema, com outro prognóstico.

Princípios gerais

  • previsibilidade adesiva acima de atalhos;
  • controle de umidade e isolamento compatíveis com a realidade clínica do caso;
  • substrato preparado e respeitado;
  • cerâmica condicionada, silanizada e limpa, na ordem correta;
  • sequência mental fixa, com variações definidas por caso e não por conveniência do dia;
  • checagem sistemática de oclusão e contatos ao final.

Sequência clínica

1. Prova inicial e ajustes prévios

  • conferência de adaptação marginal e passividade;
  • ajuste de contatos proximais antes da cimentação definitiva;
  • avaliação estética estática e dinâmica, com o paciente sentado, falando e sorrindo;
  • registro fotográfico para comparação com o mock-up e com o planejamento.

Erro nesta fase cobra caro depois. Peça que não assenta bem na prova não melhora com cimento.

2. Seleção da cor e do cimento

  • teste com pastas try-in quando o caso exigir;
  • decisão considerando cor do substrato, espessura da cerâmica e expectativa alinhada com o paciente;
  • preferência por manter naturalidade, evitando opacidade excessiva.

O cimento é parte ativa do resultado óptico, não coadjuvante. Em laminado fino, a cor final é a soma de substrato, cimento e cerâmica.

3. Tratamento da superfície interna da cerâmica

  • limpeza da superfície interna após a prova intraoral;
  • condicionamento conforme o tipo de cerâmica;
  • lavagem e secagem controlada;
  • silano na sequência correta;
  • agente de união conforme o sistema adotado.

O objetivo é uma interface cerâmica–cimento estável e quimicamente favorável, reduzindo risco de descimentação e de infiltração marginal.

4. Preparação do substrato

  • profilaxia com pasta sem óleo ou jato apropriado;
  • isolamento relativo ou absoluto conforme o caso e a extensão;
  • condicionamento de esmalte e dentina dentro de um sistema adesivo coerente;
  • aplicação do adesivo respeitando controle de umidade, tempo de ação e a estratégia de fotopolimerização do sistema.

Não existe receita única. Existe sistema definido e seguido com disciplina — a incoerência entre etapas de sistemas diferentes é uma causa frequente de falha adesiva.

5. Isolamento e controle de campo

O protocolo busca equilíbrio entre a condição ideal descrita na literatura e a realidade da boca: reflexo, salivação, extensão dos elementos, tempo de cadeira.

Mais importante do que o nome da técnica é o resultado prático: campo limpo, seco o suficiente, visibilidade adequada e condições de trabalhar sem pressa.

6. Inserção e acomodação

  • inserção do cimento na peça em quantidade controlada;
  • posicionamento progressivo, dente a dente ou em blocos, conforme a estratégia do caso;
  • pressão digital ou com instrumento adequado;
  • remoção inicial de excesso com pincel, sonda e fio dental antes da fotopolimerização completa;
  • fotopolimerização estratégica: pré-cura leve para estabilização, seguida de cura completa.

O que se busca evitar, nesta ordem de frequência: excesso proximal com irritação gengival, linha branca cervical, desalinhamento marginal e bolhas internas.

7. Acabamento, polimento e oclusão

  • refinamento de bordas com brocas finas e discos;
  • polimento com borrachas e pastas compatíveis com cerâmica;
  • checagem de contatos em máxima intercuspidação, guias anterior e canina e movimentos excursivos.

Peça esteticamente correta com guia anterior mal conduzida é convite a microtrincas, fratura e insatisfação tardia. O ajuste oclusal não é a etapa final da sessão — é a etapa que determina se o caso chega aos dez anos.

Casos com múltiplos elementos

Em cimentação de múltiplas peças, o protocolo considera:

  • ordem de cimentação definida antes da sessão;
  • forma de estabilizar a referência de linha média e de plano incisal;
  • manejo de pequenas discrepâncias que só aparecem na cimentação;
  • comunicação prévia com o laboratório, prevendo margem para ajuste sem comprometimento estrutural.

A intenção é manter o controle do caso, não administrar imprevisto.

Falha, retratamento e decisão

A prática clínica inclui lidar com:

  • peça que descimenta;
  • linha fina de infiltração marginal;
  • fratura localizada por trauma;
  • diferença de cor perceptível ao longo dos anos.

O protocolo contempla critérios para tentar recimentar, o ponto em que a substituição é a decisão correta, o manejo da expectativa do paciente e o registro fotográfico e documental para replanejamento.

Um ponto merece destaque: descimentação repetida no mesmo elemento raramente é problema de adesão. Costuma ser sobrecarga funcional. Recimentar sem investigar a causa é repetir o procedimento com o mesmo desfecho.

Etapas anteriores

A cimentação depende do que veio antes. Ver preparo para lentes de porcelana, moldagem ou escaneamento e a visão geral em Protocolo Borille.

Formação no Protocolo Borille

Esta página descreve o raciocínio da sequência. Marcas, tempos de aplicação, variações por sistema adesivo e discussão de casos fazem parte da formação — presencial e on-line ao vivo, com cerca de 500 cirurgiões-dentistas formados.

Quero saber sobre a próxima turma

Autoria: Dr. Marcelo Barboza Borille, CRO-RS 14520, responsável técnico da Sorridere (CRO-RS EPAO 2231). Membro do ITI, da SBOE e da IFED. Última revisão: agosto de 2026.

Conteúdo técnico dirigido a cirurgiões-dentistas. Descreve um protocolo clínico e não substitui formação, julgamento clínico individual nem avaliação presencial do paciente. Sistemas e materiais descritos por categoria, sem endosso comercial.